Como saber se uma pinta é maligna, em resumo
Para saber se uma pinta é maligna, observe cinco coisas: se ela é assimétrica, se tem bordas irregulares, se mistura cores, se passa de 6 mm e, principalmente, se está mudando com o tempo. Esses sinais não dão o diagnóstico, mas dizem quando a pinta precisa ser vista por um dermatologista. Quem bate o martelo é o exame da pele com dermatoscópio e, se houver suspeita, a biópsia.
“Essa pinta é perigosa?” é uma das dúvidas mais comuns em qualquer consultório de dermatologia, e o meu, no Funcionários, em Belo Horizonte, não é exceção. Abaixo explico o que observar em casa, o que não serve como sinal, e o que acontece quando a pinta chega para avaliação.
O que é uma pinta e por que surgem novas
A pinta comum, que nós médicos chamamos de nevo, é um acúmulo de melanócitos, as células que produzem o pigmento da pele. A maioria aparece na infância e na juventude, cresce junto com o corpo e depois fica estável por décadas. Genética, tipo de pele e quantidade de sol tomado ao longo da vida influenciam quantas pintas cada pessoa tem.
Ter muitas pintas não é doença. O problema é que o melanoma, o câncer de pele mais grave, também nasce dos melanócitos e costuma se parecer com uma pinta. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, ele em geral tem a aparência de uma pinta ou sinal acastanhado ou enegrecido que muda de cor, formato ou tamanho e pode sangrar. Por isso o que mais chama a atenção não é a pinta antiga e quieta, e sim a nova ou a que mudou. Já as manchas planas, acastanhadas e simétricas nos dois lados do rosto, que escurecem com o sol, costumam ser outra coisa: o melasma, que explico no texto melasma tem cura?.
Tipos de câncer de pele: não é só o melanoma
Quando falamos em “pinta maligna”, quase sempre estamos falando do melanoma. Mas existem dois grandes grupos de câncer de pele, e eles têm aparências diferentes:
- Câncer de pele não melanoma: inclui o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular. É o tipo de câncer mais comum no Brasil, segundo o INCA. Raramente parece uma pinta escura: costuma ser uma bolinha brilhante, rosada ou perolada, ou uma ferida com casca que não fecha, em áreas de muito sol como rosto, orelhas, couro cabeludo e colo.
- Melanoma: é bem menos frequente, mas é o tipo mais agressivo, pela capacidade de se espalhar para outros órgãos. Na maioria das vezes surge como uma mancha ou pinta escura nova, ou nasce de uma pinta que já existia.
A boa notícia vem da mesma SBD: quando o melanoma é descoberto cedo, as chances de cura passam de 90%. É por isso que vale tanto aprender a olhar a própria pele.
A regra do ABCDE para pintas suspeitas
A regra do ABCDE é o guia que os dermatologistas usam para ensinar o autoexame. Cada letra é um sinal de alerta:
- A, assimetria: dividindo a pinta ao meio com uma linha imaginária, as duas metades não ficam parecidas.
- B, bordas: o contorno é irregular, serrilhado ou borrado, em vez de liso e bem definido.
- C, cores: a pinta tem dois ou mais tons (marrom, preto, vermelho, azulado, áreas claras) em vez de uma cor só.
- D, diâmetro: tem mais de 6 mm, mais ou menos o tamanho da borracha de um lápis.
- E, evolução: mudou de tamanho, cor, formato ou relevo nos últimos meses, ou começou a coçar ou sangrar.
Dos cinco, o E é o que mais me preocupa. Uma pinta grande e escura que está igual há 20 anos costuma ser menos inquietante do que uma pequena que surgiu no ano passado e já mudou. E o contrário também vale: um melanoma no começo pode ter menos de 6 mm. O ABCDE é um filtro para saber quando procurar ajuda, não uma prova de que está tudo bem.
Outros sinais de alerta além do ABCDE
Alguns sinais não cabem nas cinco letras e também merecem consulta:
- O “patinho feio”: a pinta que destoa de todas as outras do seu corpo, mesmo que pareça inofensiva sozinha.
- Ferida que não cicatriza: o Ministério da Saúde lista como sintoma de câncer de pele a lesão que não cicatriza em 4 semanas, além das que coçam, descamam ou sangram.
- Pinta nova depois dos 30 ou 40 anos: a maioria das pintas comuns aparece antes disso.
- Mancha escura sob a unha ou na sola do pé: lugares que a gente esquece de olhar, e onde o melanoma também pode aparecer.
Quem tem mais risco
Qualquer pessoa pode ter câncer de pele, mas alguns grupos precisam de mais atenção. Entre os fatores de risco que a SBD e o Ministério da Saúde destacam estão:
- pele e olhos claros, que queimam com facilidade e não bronzeiam;
- histórico de queimaduras de sol fortes, principalmente na infância;
- muitas pintas pelo corpo ou pintas grandes desde o nascimento;
- caso de melanoma na família, sobretudo em pais ou irmãos;
- câncer de pele anterior;
- trabalho ou esporte ao ar livre sem proteção, e uso de bronzeamento artificial.
Belo Horizonte tem sol forte praticamente o ano inteiro, e muita gente passa o fim de semana na Lagoa da Pampulha, na Serra do Curral ou nas cachoeiras da região metropolitana sem reaplicar o protetor. O dano do sol se acumula ao longo da vida, e é isso que pesa no risco.
Quando procurar o dermatologista
Procure avaliação sem esperar se uma pinta apresentar qualquer sinal do ABCDE, se ela mudar, sangrar ou coçar sem motivo, ou se aparecer uma ferida que não fecha. Nesses casos não vale “observar mais um pouco em casa”.
Mesmo sem nada suspeito, quem está nos grupos de risco acima se beneficia de um exame periódico da pele inteira. O intervalo entre os exames depende do risco de cada um e é combinado na consulta. No consultório, essa avaliação faz parte do mapeamento de pintas e prevenção do câncer de pele, em que examino o corpo todo, inclusive couro cabeludo, plantas dos pés e as costas, que ninguém consegue ver no espelho.

Como é feito o diagnóstico: dermatoscopia e biópsia
Olhar a pinta a olho nu é só o começo. O passo seguinte é a dermatoscopia: um aparelho com lente de aumento e luz própria que encosta na pele e mostra estruturas que não aparecem a olho nu. O Ministério da Saúde descreve o diagnóstico do câncer de pele exatamente assim: exame clínico pelo dermatologista, dermatoscopia quando necessário e biópsia para confirmar. O exame não dói, não corta e não precisa de preparo.
Depois da dermatoscopia, há três caminhos possíveis:
- A pinta é benigna: segue apenas o autoexame e as revisões combinadas.
- A pinta é duvidosa: pode ficar em acompanhamento, com nova avaliação depois de alguns meses para ver se mudou.
- A pinta é suspeita: a indicação é retirá-la. A retirada é feita com anestesia local e o material vai para o exame anatomopatológico, a biópsia, que é o que confirma ou descarta o câncer.
Explico com mais detalhe como funciona a retirada de pintas e a biópsia na página do procedimento, para quem já recebeu essa indicação e quer saber o que esperar.
Como fazer o autoexame em casa
Uma vez por mês, depois do banho, em um lugar bem iluminado:
- Olhe de frente e de costas no espelho grande, com os braços levantados.
- Use um espelho de mão para a nuca, as costas, as nádegas e a parte de trás das pernas.
- Examine palmas, solas, entre os dedos e as unhas.
- Afaste o cabelo com um pente ou secador para ver o couro cabeludo, ou peça ajuda a alguém.
- Fotografe as pintas que chamam atenção, com uma régua ou moeda ao lado. Comparar fotos ajuda muito a perceber o E do ABCDE.
Prevenção: como proteger a pele no sol de BH
Não dá para mudar a genética, mas dá para reduzir o principal fator que a gente controla, o sol. As recomendações de prevenção da SBD são simples e funcionam melhor quando viram hábito:
- protetor solar todos os dias, não só no lazer, com proteção UVA e UVB e FPS 30 no mínimo, reaplicado ao longo do dia;
- ficar na sombra entre 10h e 16h sempre que possível;
- chapéu de aba larga, óculos escuros e roupas com proteção nas atividades ao ar livre;
- nunca usar bronzeamento artificial;
- atenção redobrada com crianças, porque as queimaduras na infância pesam no risco futuro.
Ficou com dúvida sobre uma pinta?
Nenhum texto substitui o exame. Se você notou uma pinta nova, uma que mudou ou uma ferida que não fecha, o melhor é avaliar logo, porque o câncer de pele descoberto cedo tem tratamento muito mais simples. Atendo no consultório da Av. do Contorno, no Funcionários, perto da Savassi, de segunda a quinta-feira. Ligue para (31) 3227-1098 ou veja os detalhes na página de contato para marcar a sua avaliação.
